Monday, October 16, 2006

 

A beleza do sotaque


POR Alexandre Chaúque

- A senhora tem um sotaque belíssimo. Parece uma rola!

- Obrigada.

A voz dela vem do outro lado da linha telefónica que nos põe, ocasionalmente, em comunicação. Ela ligou, por engano, para o meu celular e quando se apercebeu que tinha contactado um número errado pediu, de forma educada, desculpas. Fê-lo de tal forma meiga que me fez estremecer as vísceras. Parecia que estava sendo varado por um castigo de amor.
- A senhora é kimwani?
- Por acaso sou.
- Adoro ouvir os kimwani falar a língua portuguesa e também enlouqueço perante o espectáculo que é a beleza das mulheres kimwani.
- O senhor acha que somos belas?
- E não pode haver debate à volta da beleza das mulheres kimwani, minha senhora, porque tudo aquilo que elas representam flui, levemente, como o voo elegante das rolas e encanta como arrulhar melancólico e amoroso dessas mesmas rolas. A senhora é uma rola.
Houve um curto silêncio do outro lado da linha, ao mesmo tempo que eu também sentia que as palavras que acabava de pronunciar podiam ter aberto um caminho que podia me levar ou ao inferno, ou ao céu.
- Minha senhora, não tenho o direito de gastar o seu crédito, muito menos de lhe roubar o seu precioso tempo. Apenas dei liberdade às palavras que ficaram aprisionadas dentro de mim, logo depois de ouvir as suas palavras de canto da rola. A senhora é uma rola.
- Meu Deus!
- É isso, minha senhora. Mas se calhar eu não mereça ser ouvido por si. De qualquer forma, o meu dia de hoje foi abençoado pelo engano que a senhora cometeu na digitação dos números. Quem me dera que se enganasse todos os dias.
Ela riu-se. Ouvi aquele riso como se estivesse a soar dentro do meu peito. Parecia-me um riso amigável e apaixonante e provocador e...
- Não se preocupe com o crédito, podemos conversar à vontade. O pouco dinheiro que ainda tenho no meu crédito permite-me continuar a ouvir essas palavras durante mais algum tempo. Há muito que não me sintia uma pessoa... uma mulher. É bom ouvir palavras tão doces, tão poéticas! A propósito, o senhor é poeta?
- Não, eu não sou poeta. Sou vizinho deles.
Era uma tarde de sábado, com o sol a tanger a linha final para desenhar o transcendental crepúsculo, que não o poderei contemplar devido às casas que me impedem de ver o horizonte. Tentei desenhar a estrutura física da mulher que falava do outro lado da linha. Imaginei como seriam os seus olhos, o busto e tudo o resto. Pensei: será que essa voz linda vai entrar em consonância com a formação do corpo? Não sei, mas ela é kimwani e todas as kimwani são bonitas. E eu? Será que sou sucificientemente bonito para ser aceite por uma kimwani? Bom, não sou propriamente um homem bonito, mas também não sou feio. Até porque o amor é cego e porquê me vou preocupar com essas coisas pequeninas?
- Desculpe-me. Estamos a conversar e nem sabemos em que ponto se encontra cada um um de nós.
- É verdade, não tinha reparado nesse aspecto, eu estou neste momento em Pemba e o senhor?
- Estou em Maputo, minha rola.
Ela voltou a rir amorosamente quando eu disse: minha rola.
De novo um curto silêncio.
- Desculpe-me, alguém está a bater à porta, depois ligo para si.
- Tudo bem.
- Beijo.
- Beijo.

In BITONGA BLUE
Maputo, Segunda-Feira, 16 de Outubro de 2006:: Notícias

imagem extraída em <http://www.futur.org.mz/en/about-mozambique/caboDelgado.html>

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