Monday, January 30, 2006

 

O século africano das novas tecnologias da informação e comunicação

Por Teodósio Bule

Aqueles que como eu, tiveram o privilégio da contemporaneidade com Alberto Machavele, certamente se lembram da exímia maneira como aquele contador de estórias nos ensinava História. Não me refiro apenas à História de Moçambique. Creio que é pacífico afirmar que o âmbito dos ensinamentos de Machavele não se limitava ao passado estrito de um povo. Machavele integrava nos seus relatos, factos como a Evolução da Comunicação entre as pessoas, nas suas diversas formas.

Num dos seus trabalhos, de forma hilariante mas pedagógica, Alberto Machavele começa por descrever a era em que a carta ainda não era o meio de comunicação remota entre as pessoas, e termina na era do telefone e do fax. Quis a infelicidade que Alberto Machavele nos deixasse antes da divulgação generalizada das novas tecnologias da informação e comunicação, que dão hoje suporte à chamada sociedade da informação, na qual somos incontestavelmente parte integrante.

As mensagens de Machavele eram de tal eloquência que só uma investigação apurada poderia garantir aquele resultado. Quando houvesse espaço e motivo para a crítica, esta era feita sempre de uma maneira justa e construtiva. É nesta capacidade machaveliana de leitura do meio envolvente, que vamos concentrar a nossa atenção nos próximos minutos.

Que diria hoje Machavele, perante as maravilhas que as novas tecnologias da informação e comunicação nos proporcionam? Como comentaria ele o facto de poder hoje enviar instantaneamente as fotos dos patos que ‘ca em casa’ aguardam os dentes daqueles que estão ‘lá nas minas do ‘Jon’? Como reagiria ele ao sorriso real e directo que ele há mais de 15 anos imaginou no rosto dos seus, quando o ouvissem ao telefone?

São muitas as perguntas, certamente fértil a imaginação do leitor, no entanto nenhuma a resposta. Há contudo duas certezas. Em primeiro lugar, a certeza de que Machavele nos brindaria com mais uma estória de qualidade inquestionável, da qual moçambicanamente nos orgulharíamos, como sempre o fizemos. Em segundo lugar, há a certeza de que ele não nos pouparia da mais severa crítica, por causa do subaproveitamento a que votamos os meios técnicos de que hoje dispomos.

Ao contrário das anteriores revoluções económico-sociais, as novas tecnlogias da informação e comunicação têm o condão de reequilibrar, em certa medida, as oportunidades dos países, qualquer que seja o seu nível de desenvolvimento económico e social. Dependendo daquilo que estiver em análise, as tecnologias da informação, em muitos aspectos, recolocam no mesmo ponto de partida países como o Canadá e Moçambique, dois paises diametralmente opostos no índice do desenvolvimento humano.

Um cultor de belas-artes residente em Moçambique não difere do cultor residente no Canadá, em termos técnicos e capacidade criativa. Mas o público canadiano talvez esteja privado das criações moçambicanas, por desconhecer, por exemplo, que em Moçambique existem criadores merecedores de um lugar nas mais conceituadas galerias de Otava ou Ontário. E mais, os criadores residentes no Canadá não sabem que Moçambique é um espaço com uma taxa elevada de consumo de produtos culturais.

Estes aspectos reflectem uma clara desvantagem comparativa de Moçambique, em relação ao Canadá. Mas hoje já não há motivos para que esta situação se mantenha, se tivermos em conta uma utilizaçao eficaz das novas tecnologias da informação, e o papel da chamada sociedade civil. Com as novas tecnologias da informação, a sociedade civil recupera um quase ilimitado poder de decisão sobre o seu quotidiano.

Longe vão os tempos em que os redactores e os proprietários dos meios de comunicacao social detinham o poder quase exclusivo de determinar o que cada um de nós deveria saber sobre o nosso próprio dia-a-dia. Não podemos controlar o mundo exterior, mas podemos influenciá-lo, repondo a verdade onde outros a pretendam deturpar.

A imagem da extrema pobreza que caracteriza os paises africanos, supostamente para atrair a simpatia e o apoio dos povos dos paises desenvolvidos do hemisfério norte, é extremamente perniciosa para os mesmos pobres que se pretende ajudar, pois afasta os respectivos países do convívio com os restantes países do globo. Muitos negócios deixam de ter lugar por causa desta imagem, principalmente aqueles negócios que envolveriam directamente os interesses dos pobres.

Nos países desenvolvidos, em geral, existe uma preguiça mental extrema, quando o assunto é a análise da evolução política e social a nível internacional. E há, ao mesmo tempo, uma confiança despreocupada nos meios de comunicacao social ocidentais, pelo que qualquer informação veiculada raramente é filtrada. No que concerne à informação sobre África, a situação é assustadoramente preocupante. É simplesmente inaceitável a ideia que o europeu mediano tem sobre o nosso continente!

Moçambique, não obstante as dificuldades que ainda enfrenta, goza de um enorme prestígio internacional, mas a imagem de um pais onde seja possível estabelecer relações comerciais e de lazer ainda não está enraizada na mente dos nossos potenciais parceiros. É neste âmbito que a sociedade civil joga um papel importante.

Em contactos informais, com os nossos amigos, podemos influenciar a ideia que se tem do nosso país. Basta para isso mostrar, pura e simplesmente, o nosso quotidiano, através de imagens, por exemplo, nas salas virtuais de conversa.

Uma coisa é mandarmos uma notícia a um amigo virtual, sobre o surto de cólera que assola a cidade de Maputo, outra é mostrar a imagem da inauguração de uma exposicao de pintura de um Gemuce ou Zandamela, tirada no mesmo dia, algures num centro cultural dos muitos que existem em Maputo.

Sempre que estivermos em linha, devemos aproveitar a oportunidade para partilhar com os nossos interlocutores a nossa imagem do dia. A imagem não tem que ser necessariamente bela ou feliz, pois não pretendemos esconder a verdade, mas sim partilhar o nosso quotidiano com aqueles que estão longe. O nosso objectivo deverá ser sempre o de colocar o nosso país na memória dos nossos interlocutores, de forma realista e inovadora.

Em suma, podemos afirmar, com certa autoridade, que estava Alberto Machavele igualmente convicto de que as novas tecnologias da informação e comunicação deverão ser encaradas como meios eficazes para alcançar os objectivos de desenvolvimento económico e social. O poder das novas tecnologias da informação e comunicação na partilha do conhecimento pode contribuir sobremaneira para o desenvolvimento, sobretudo porque pode transformar a sociedade por meio da capacitação das pessoas entanto que indivíduos.

Uma vez garantido o acesso, as novas tecnologias da informação e comunicação podem ser adaptadas para satisfazer as necessiades locais, mesmo as dos mais pobres da sociedade. O número de intervenientes é enorme, e crescente, e as novas tecnologias da informação e comunicação são, por excelência, facilitadoras de novas formas de cooperação e negócio.


Este artigo foi inicialmente publicado no caderno de Economia&Negócios do "notícias"( Moçambique), em 27 de Janeiro de 2006


Comments:
Dr. Bule,

Realmente, o que diria o nosso saudoso Alberto Machavele, perante as maravilhas que as novas tecnologias da informação e comunicação nos proporcionam? Através delas estou aqui diante do computador para elogiar-te e enfasear o seu artigo ‘o século africano das novas tecnologias’ que o lí no suplemento Economia e Negócios do Jornal Notícias de 25 de janeiro.
Indubitavelmente, vivemos num momento de novas descobertas, com o mapeamento do genoma humano, grandes mudanças estruturais no modo como a ciência é executada e oportunidades sem precedentes de ligação em rede e de partilha de conhecimentos determinadas pelos custos decrescentes das comunicações.
O progresso tecnológico não é uma simples peça de vestuário ja utilizada, de forma e custo apropriados para oferecer aos países em desenvolvimento. Deve ser antes um processo de criação de conhecimentos e de construção de capacidades nos países em desenvolvimento.
Necessidades, prioridades e constragimentos inevitáveis variam amplamente entre regiões e entre países – daí a importância da estratégia para cada país.
Concordo plenamente com o seu artigo, principalmente quando diz que sempre que estivermos em linha devemos aproveitar a oportunidade para partilhar com os nossos interlocutores a nossa imagem do dia, que o nosso objectivo deverá ser sempre o de colocar o nosso país na memória dos nossos interlocutores, de forma realista e inovadora. Claro que também estou fazendo o mesmo. Não sou nenhum país, sou apenas uma economista de palmo e meio ( estou ainda frequentando o quinto ano na UEM), mas estou aqui promovendo a minha imagem do dia mando-te este e-mail e tenho certeza, quase que absoluta, que despertará certo interesse, alguma curiosidade em si. Mais, no último paragráfo do seu artigo, dentre outras coisas, o Dr. Bule diz que as novas tecnologias da informação e comunicação são por excelência facilitadoras de novas formas de cooperação e negócio. Espero sinceramente, que este seja um bom começo de uma grande cooperação.

Se Machavele fosse vivo, teria muito que comentar.
Um abraço,

Ângela
Maputo
 
Cara Ângela!

muito obrigado pela sua amável mensagem. Fico feliz de saber que os meus artigos são lidos com interesse, e que chegam mesmo a sensibilizar.

De facto, e como pôde ver, o meu maior objectivo foi levantar algumas questões que me parecem pertinentes, ao mesmo tempo homenageando aqueles que para mim são os verdadeiros Mestres, mas que passam despercebidos: Alberto Machavele e outros ilustres desconhecidos desta nossa África.

Também faço votos para que este seja o início de uma longa e profícua troca de ideias e experiências. Terei todo o gosto em manter o contacto consigo.

Com os melhores cumprimentos, desejo-lhe os maiores sucessos no seu último ano do curso.

Teodósio
 
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